SAF: A Nova Fronteira para o Etanol Brasileiro (Do campo para o céu)
O desafio da descarbonização:
O mundo está diante de um dos maiores desafios da transição energética: como descarbonizar setores em que a eletrificação ainda não é uma solução viável? A aviação é o principal deles.
A resposta que vem ganhando escala global é o SAF – Sustainable Aviation Fuel, o combustível sustentável de aviação. No meu artigo anterior sobre etanol de milho, mencionei o tema de forma breve, como uma nova fronteira de demanda para o etanol brasileiro, e percebi que deveria aprofundar mais no assunto para dar a ênfase que o tema merece, e é exatamente isso que proponho aqui.
Segundo a IATA (International Air Transport Association), o consumo global de combustível de aviação deve ficar em torno de 104 bilhões de galões por ano em 2025 e 2026, o equivalente a 390 a 400 bilhões de litros, gerando emissões superiores a 1 bilhão de toneladas de CO₂ anuais.
A produção de SAF, no entanto, ainda é residual: cerca de 2,4 milhões de toneladas em 2026, apenas 0,8% do total consumido. Para chegar ao net-zero em 2050, a IATA estima necessidade de 450 a 500 milhões de toneladas de SAF por ano.
No Brasil, o consumo de querosene de aviação já soma cerca de 7 bilhões de litros ao ano, com projeção de chegar a 10 a 11 bilhões de litros até 2037. Somos hoje apenas 1,7% a 1,8% do consumo mundial, mas com uma matéria-prima sustentável disponível em escala que poucos países têm.
A Europa criou demanda regulatória por meio do ReFuelEU Aviation, com participação mínima obrigatória de SAF nos aeroportos a partir de 2025, crescendo até 70% em 2050.
Nos Estados Unidos, o SAF Grand Challenge estabeleceu como meta 3 bilhões de galões por ano até 2030 e 35 bilhões até 2050.
No campo industrial, a LanzaJet inaugurou em janeiro de 2024 a primeira planta comercial do mundo a converter etanol em SAF, nos Estados Unidos, com apoio de investidores como Airbus, Shell e Microsoft. Na Europa, a Tereos avança em uma planta semelhante na França, em parceria com Technip Energies, Airbus e Safran.
O Brasil combina biomassa em grande escala, uma indústria de biocombustíveis madura e diferentes matérias-primas capazes de produzir etanol, como cana e milho. Segundo a IATA, o país poderá dispor de até 60 milhões de toneladas de biomassa sustentável em 2050, com potencial para produzir SAF nessa mesma escala.
Para 2030, a estimativa é de que o etanol e os óleos disponíveis no Brasil possam gerar cerca de 12 milhões de toneladas de SAF, aproximadamente cinco vezes toda a produção mundial estimada para 2026.
Quanto etanol a mais isso exige?
Essa é, na minha visão, a pergunta mais importante do debate. A conversão tem uma penalidade física relevante: são necessários hoje entre 1,7 e 1,8 litro de etanol para produzir 1 litro de SAF pela rota ATJ, ilustrada na imagem acima.
Só para o mercado doméstico, a UNICA projeta demanda de cerca de 4 bilhões de litros de SAF em 2037, o que exigiria em torno de 7 bilhões de litros de etanol adicionais, mais de 15% de toda a produção brasileira projetada para a safra 2026/27.
A Raízen fechou parceria com a SAFPAC, de Hong Kong, para estudar a produção de SAF a partir de etanol brasileiro. A JetBio, do grupo americano Summit Agricultural, adquiriu terreno em Paulínia (SP) para construir o que promete ser a maior planta comercial do mundo em conversão de etanol para SAF, com capacidade de 1 bilhão de litros por ano e investimento de US$ 2 bilhões.
A Petrobras também estuda um projeto semelhante na região de Paulínia. Segundo a EPE, a capacidade total já anunciada de projetos brasileiros de SAF e diesel verde soma 4,5 bilhões de litros por ano, com investimentos estimados em R$ 27,9 bilhões.
Existe tecnologia barata?
Sendo direto: ainda não. O preço médio do SAF em 2024 chegou a cerca de 3,1 vezes o preço do combustível de aviação convencional, por causa da perda de densidade energética na conversão e do consumo intensivo de hidrogênio no processo.
O que existe é uma vantagem estrutural brasileira: etanol abundante, com custo competitivo e baixa intensidade de carbono, tanto de cana quanto de milho. Essa é justamente a análise de ciclo de vida citada na imagem acima, e o argumento comercial que a JetBio vem usando para atrair investidores para o projeto de Paulínia.
O etanol de cana já tem toda uma cadeia consolidada de produção, logística e certificação, além do etanol de segunda geração (E2G), produzido do bagaço e da palha. Já o etanol de milho ganhou um marco relevante em julho de 2025, quando a OACI reconheceu oficialmente o milho de segunda safra brasileiro como matéria-prima sustentável para SAF.
O futuro, provavelmente, não será cana ou milho, mas a evolução da usina tradicional para uma biorrefinaria integrada, capaz de transformar diferentes matérias-primas em diferentes moléculas de maior valor agregado, as duas plataformas complementares mostradas na imagem acima.
O passo regulatório brasileiro:
Em 12 de agosto de 2026, o presidente Lula assinou o Decreto nº 13.094/2026, regulamentando o ProBioQAV, o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação.
As metas começam em 1% de redução das emissões em 2027 e evoluem até 10% em 2037.
Um detalhe relevante é que o mandato não se baseia simplesmente em volume de SAF, mas na redução efetiva de emissões considerando a análise de ciclo de vida, o que favorece justamente as matérias-primas de menor intensidade de carbono, como o etanol brasileiro.
O decreto também criou o Certificado de Sustentabilidade do SAF, permitindo mecanismos como o Book & Claim.
Conclusão:
Na minha visão, o SAF pode representar uma das maiores oportunidades estratégicas para o setor sucroenergético brasileiro nas próximas décadas. Mais do que criar um novo mercado para o etanol, pode promover uma evolução no modelo de negócio das usinas, com maior agregação de valor, diversificação de produtos e melhor retorno sobre os ativos agrícolas, industriais e logísticos existentes.
A questão estratégica talvez não seja mais apenas “como produzir mais etanol?”, mas “como maximizar o valor de cada tonelada de cana-de-açúcar e de milho processada?” O SAF abre essa possibilidade ao conectar o etanol brasileiro a um mercado global em expansão. O Brasil já possui escala, tecnologia e experiência industrial; o próximo passo é transformar essas vantagens em crescimento, eficiência, diversificação e geração sustentável de valor. Do campo para o céu, o SAF pode ser uma das grandes fronteiras dessa transformação.
Publicado originalmente no LinkedIn. Comente e acompanhe as próximas análises.
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