Quando a disponibilidade de mão de obra passa a definir onde uma empresa pode investir
Há algum tempo, ouvi de um executivo experiente do setor sucroenergético uma frase que me chamou a atenção: “Para todo investimento que for planejar, verifique se existe necessidade de mão de obra. E, se existir, reavalie o investimento.”
A afirmação pode parecer radical, mas traduz uma preocupação que vem ganhando espaço nas empresas do setor. A disponibilidade de profissionais deixou de ser uma questão discutida apenas por Recursos Humanos ou pelas áreas responsáveis pela operação. Dependendo da atividade e da região, já precisa ser considerada na análise de viabilidade de uma expansão ou de um novo investimento.
Ao longo de mais de 30 anos no setor sucroenergético, acompanhei uma mudança muito grande na relação entre tecnologia e mão de obra. Saímos de uma operação que dependia de um enorme contingente de trabalhadores, principalmente nas atividades agrícolas, para um modelo cada vez mais mecanizado, automatizado e dependente de profissionais qualificados.
A mecanização da colheita foi um dos momentos em que essa transformação ficou mais evidente para mim. Na época, o desafio das empresas não se resumia à aquisição das máquinas. Precisávamos encontrar profissionais capazes de operá-las e esse tipo de mão de obra simplesmente não estava disponível no mercado na quantidade necessária.
Nós, gestores, tivemos que qualificar trabalhadores rurais para se tornarem tratoristas e preparar tratoristas para operar colhedoras. As próprias concessionárias enfrentavam dificuldades para atender ao volume de equipamentos que havia sido colocado no campo em um período relativamente curto. Era uma cadeia inteira tentando se adaptar a uma mudança que avançava rapidamente.
Os números ajudam a dimensionar o impacto dessa transformação. Dados da Pecege referentes à safra 2023/24 no Centro-Sul mostram que uma colhedora apresentava rendimento médio de aproximadamente 600 toneladas por dia. Considerando as referências de produtividade do corte manual utilizadas pelo setor, uma única máquina passou a executar um volume de trabalho que anteriormente demandaria dezenas de trabalhadores.
A mecanização reduziu significativamente a necessidade de mão de obra em determinadas atividades, mas criou uma demanda diferente. O setor passou a precisar de operadores, mecânicos, eletricistas, técnicos de manutenção e outros profissionais com maior nível de qualificação. A quantidade de pessoas necessária para executar determinadas operações diminuiu, enquanto a dependência de profissionais especializados aumentou.
É justamente por isso que considero a discussão atual sobre mão de obra mais complexa do que simplesmente afirmar que faltam pessoas no setor.
Mão de obra também precisa entrar na análise do investimento
Quando uma empresa analisa uma expansão, normalmente considera CAPEX, disponibilidade de matéria-prima, logística, produtividade, custos operacionais e retorno esperado. A disponibilidade de mão de obra precisa fazer parte dessa mesma análise.
Existe mão de obra disponível na região? Quanto tempo será necessário para formar a equipe? Qual será o custo para atrair e reter esses profissionais? A localização permite transportar pessoas adequadamente? Os turnos são compatíveis com a realidade daquela região? Existem atividades que podem ser automatizadas? E qual será o impacto para a operação se a empresa não conseguir preencher determinadas posições?
São questões que precisam ser respondidas antes da implantação do projeto, e não depois.
Uma operação pode ser tecnicamente viável e apresentar um bom retorno no estudo econômico, mas a execução desse plano dependerá da capacidade de formar e manter a equipe necessária para operá-la. Quando isso não acontece, a falta de profissionais começa a aparecer em produtividade, utilização dos ativos, custos, manutenção e capacidade de crescimento.
Esse é o ponto que vejo por trás daquela frase que ouvi do executivo. Não significa deixar de investir sempre que um projeto demandar novas contratações. Significa considerar a disponibilidade de pessoas como um dos riscos do investimento e definir, ainda na fase de planejamento, como esse risco será administrado.
Contratar mais não resolve sozinho o problema
Se existe uma escassez de determinados profissionais, aumentar o esforço de recrutamento pode ajudar, mas não cria automaticamente a oferta necessária. O setor já viveu situação semelhante durante a mecanização e precisou formar a mão de obra que não encontrava disponível.
Acredito que teremos de fazer isso novamente, agora considerando uma operação que continuará incorporando automação, digitalização e novas tecnologias.
Qualificação e requalificação precisam fazer parte desse planejamento. Ao mesmo tempo, as empresas precisam avaliar quais atividades podem ser automatizadas ou redesenhadas e quais continuarão dependendo diretamente de pessoas. Para essas funções, será necessário olhar com mais atenção para remuneração, turnos, transporte, condições de trabalho, desenvolvimento e perspectivas de carreira.
Existe ainda uma questão que considero especialmente importante: retenção.
Quanto mais difícil e caro é formar determinado profissional, maior é o custo de perdê-lo. Uma empresa pode levar meses para desenvolver um bom operador ou um técnico especializado e perder esse investimento porque não conseguiu oferecer condições adequadas para que ele permanecesse.
É nesse ponto que a discussão também chega à liderança.
Durante muitos anos, e isso não acontece apenas no setor sucroenergético, bons profissionais técnicos foram promovidos para posições de gestão principalmente pelo conhecimento que possuíam da operação. A competência técnica é importante, mas não significa necessariamente que aquele profissional esteja preparado para gerir uma equipe.
Em um cenário de escassez de mão de obra qualificada, esse problema se torna ainda mais relevante. Não faz sentido investir na atração, contratação e formação de pessoas sem dedicar a mesma atenção à capacidade dos gestores de desenvolver e reter suas equipes.
O desafio começa antes da vaga aberta
O setor sucroenergético já mostrou que consegue responder a grandes transformações. A mecanização mudou profundamente a operação agrícola, aumentou a produtividade e criou novas necessidades de qualificação. Automação e digitalização continuarão fazendo esse movimento nos próximos anos.
A questão é que a estratégia de mão de obra precisa acompanhar essas mudanças.
Na minha visão, esse planejamento passa por três movimentos que precisam acontecer de forma integrada: formar profissionais para as competências que continuarão sendo necessárias, automatizar ou redesenhar atividades em que a dependência de mão de obra representa um risco crescente e melhorar a capacidade de reter as pessoas que a empresa decidiu desenvolver.
Isso exige participação de Recursos Humanos, mas não pode ser responsabilidade apenas de Recursos Humanos. Operações precisa participar. Finanças precisa entender o impacto. A liderança precisa assumir seu papel. E a disponibilidade de pessoas precisa ser considerada por quem decide onde e como a empresa vai investir.
Por isso, quando volto à frase que abriu este artigo, não a interpreto como uma recomendação para deixar de investir em projetos que dependam de mão de obra. Para mim, ela funciona como um alerta para algo que mudou na equação do setor.
Se uma empresa pretende ampliar sua capacidade, implantar uma nova operação ou investir em uma região, já não basta saber se existem matéria-prima, tecnologia, infraestrutura e capital disponíveis.
Também precisamos saber quem vai operar esse investimento quando ele estiver pronto.
Publicado originalmente no LinkedIn. Comente e acompanhe as próximas análises.
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